Textos categorizados 'pai'

Ele e ela

Ele estudou pouco, leu pouco, escreve quase nada.

Ela estudou mais, foi professora, lê e escreve bem.

 

Ele sempre dependente, não faz nada sem ela. Até pra ver a roupa que vai vestir, precisa dela.

Ela sempre foi mais independente. Geralmente tem solução para os problemas caseiros e sua opinião prevalece.

 

Ele sempre foi mais “bruto”, mas não menos generoso.

Ela sempre foi mais “pacificadora”, com tato para impedir e solucionar conflitos.

 

Ele sempre trabalhou muito, mas o dinheiro dele quem controla é ela. Desde sempre.

Ela trabalhou menos fora de casa, pois se aposentou após ter a segunda filha, mas em casa, toma conta de tudo e controla as finanças. Quando ele quer dinheiro para comprar bala ou arrumar o carro, tem que pedir.

 

Ele adora ficar em casa. Não gosta de passeios, comer fora, nem lugares diferentes.

Ela adora sair, passear, conhecer gente, lugares, novidades.

 

Ele dirige.

Ela não aprendeu. E agora acha que não dá mais tempo. Tá aí uma coisa pra a qual ela  mais precisa dele: deslocar-se. Ele não gosta de dirigir, ela precisa. Quase sempre uma “encrenca”.

 

Eles têm três filhos. Ele critica se algum deles sai da linha (da linha dele). Mas se derrete quando eles lhe dão um pouco mais de atenção. Ela sempre os defende. Pra ela, os filhos são “tudo na vida” e “quase perfeitos”.

 

Eles adoram implicar um com o outro por nada. Só pra se divertir. E de uns tempos pra cá, acharam uma criaturinha perfeita pra “sacanear” um ao outro: o neto.

 

Ele diz para o neto: essa casa não é da vovó ou esse brinquedo do “Panda” é igual a vovó, tem barrigona!  Ela diz para o neto: desmancha o cabelo dele, faz um topete! Ou, fala pro vovô sair daqui, diz pra ele ir dormir.

 

Bom, o neto se diverte e quem presencia essa “guerrinha” só consegue rir. É um amor de quase 40 anos. De cumplicidade e implicância. De generosidade e dependência. De harmonia e parceria. De companheirismo e doação. São duas pessoas com gênios diferentes, mas com almas gêmeas e corações grandiosos. Se encontraram na vida e fizeram história. São exemplos de vida, de dignidade e de amor.

 

Sorte a minha, pois eles são o Seo Beto e a Dona Maurina, meu pai e minha mãe.

 

 

Lipe com Vó Ina e Vovô Beto

Lipe com Vó Ina e Vovô Beto

Barulho matinal

Meu pai é uma grande figura. Homem humilde, com cara de bravo, um grande coração e cheio de manias (aliás, quem não tem algumas?). Cultiva um hábito de manezinho da ilha: é um “típico passarinheiro”. A casa dele, antes minha também, tem mais de 20 gaiolas.

Fiz essa introdução sobre ele, porque hoje ouvindo um barulho peculiar, lembrei de uma “mania” dele, que, na verdade, era uma estratégia.

Estava eu esta tarde na cozinha da minha casa e na casa ao lado acontece uma reforma. Ouvia vários barulhos de obra, mas um deles me chamou a atenção, foi me remetendo ao passado e “plim”! Identifiquei o tal barulho “familiar”.

Era um barulho de pá arrastando no chão. Lembrei que quando era adolescente e morava no Itacorubi - aliás morei lá desde que nasci até casar – o meu quarto (e de minha irmã) ficava do lado da casa que mais pegava sol. E, é claro, o melhor lado da casa para os passarinhos tomarem um “solzinho da manhã”.

A janela do nosso quarto tinha uma veneziana de madeira, daquelas cheias de estrados inclinados, perfeita para colocar um “ganchinho” e pendurar uma gaiola.

Meu pai sempre acordou cedo na vida, inclusive sábados, domingos e feriados. Quando aos fins de semana e feriados o sol aparecia e nós ainda estávamos dormindo, ele dava um jeito de fazer vários barulhos para nos acordar. O último recurso adivinhem qual era? Arrastar uma pá ao lado da janela, na areia, deixando “escapar” e batendo na lateral da calçada de concreto.

Como era impossível dormir com um barulho desses, acabávamos acordando e saindo da cama. Aí ele ficava feliz e logo já pendurava a gaiola do melhor passarinho na veneziana da janela.

Engraçado, porque na época, eu ficava indignada. Mas, hoje, ouvindo o barulho na minha casa, não me senti incomodada, ao contrário, me deu até vontade de acordar de novo com aquele barulho chato…

Esse é o Seo Beto. Grande figura!

Esse é o Seo Beto. Grande figura!


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