Textos categorizados 'mãe'

Missão cumprida

Nem sempre a cabeça e o coração de uma mãe estão em sintonia. Por vezes, a cabeça toma uma decisão que é difícil para o coração segurar. Surgem a dúvida acerca do “certo e errado”, “bom e ruim”.

A maioria das mulheres quando engravida deseja o melhor para seu filho e já vai pensando em como vai ser cada detalhe após ele nascer. Se vai ser menino ou menina, se ele vai chorar ou não, se o parto vai ser normal ou cesárea, se ele vai mamar no peito ou não. Enfim, mil coisas fervilham na cabeça. E o coração descompassa.

Dentre todas essas coisas, a amamentação ocupa um papel especial. O ato de amamentar é uma doação. É um desapego à própria liberdade em favor de uma pessoa. Uma pequena pessoa.

A expectativa em torno deste momento chega a ser angustiante: e se o bebê não mamar? e se o leite não descer? e se o mamilo rachar? E assim vai.

Tanto o meu filhote mais velho quanto o mais novo, logo ao nascer já mamaram como se também estivessem esperando por aquele momento.

São momentos únicos, especiais. Uma troca fantástica de ternura. O olhar de um bebê para uma mãe no momento da amamentação deveria ser elevado ao grau de “olhar mais especial do mundo”.

Até os seis meses, quando possível, prazeroso e saudável para mãe e bebê, é obrigação. Mais que esse tempo é pura doação.

O momento do desmame é, ao contrário, perturbador. Esta semana desmamei o Pequeno Gui. Tem sido mais difícil pra mim do que pra ele, assim como foi com o Lipe, que parou de mamar com 1 ano e 3 meses. A última mamada do Guigui  foi na madrugada do dia 3 de setembro às 2h30 da manhã.

Ele completa 9 meses este mês. Mas nem foi pela idade que tomei esta decisão e sim pelo fato de que estava viciado em mamar. Acordava de 3 a 4 vezes por noite para mamar 4 ou 5 minutos. Ele não descansava direito e eu muito menos.

Decidi, implementei a decisão, mas a confusão mental atormenta. Será que não estou sendo cruel, tendo leite e ‘negando” a ele? Será que estou sendo egoísta e pensando só no meu descanso, na minha liberdade?

Como eu disse, pra ele foi mais tranquilo do que pra mim. Já estou com saudades dos momentos em que ele mamava, me olhava, sorria com os olhos me agradecendo pelo carinho, pelo leite morninho, pelo contato.

Mas é assim… na vida as decisões tem que ser tomadas. O sofrimento pela saudade desses momentos únicos existe, é intenso, mas faz parte. Encerro esta etapa com a sensação de missão cumprida.

Cumpri mais uma obrigação de mãe.

Independência ou mãe!

Nada mais virtuoso para uma mãe saber que cria seus filhos para o mundo.

Eles nascem, precisam da gente o tempo todo, o que nos proporciona satisfação e cansaço. Crescem, vão ficando independentes e correm para o mundo.

Muitas mães padecem de sofrimento à medida que seus filhos vão se tornando independentes. Deixam de se sentir insubstituíveis, necessárias, únicas.

É difícil não se sentir assim, mas também é sábio, é sadio, é da vida. O contrário só faz mal ao filho e à mãe.

Com dois filhos, sempre soube que passaria por isso em dose dupla. Me preparo a cada dia um pouquinho para um dia deixar de ser tão importante, relevante, necessária.

Porém, começou cedo demais essa história toda. Ontem, ao levar o Lipe na escola – relembro que ele tem 4 anos (pra mim, apenas 4 anos!) – ele me diz:
- Mamí, que tal amanhã você ficar no carro e eu entro sozinho na escola?

Pega de surpresa…
- Mas amanhã? Por que?
- Porque eu quero ir sozinho, já sou grande.
- Claro! Muito grande. Vou achar muito legal! (ã???)

Fiquei pensando nisso durante o dia e à noite. Lembrei dos primeiros dias que fui levá-lo na escola, a fase de adaptação, o choro de abandono, o meu de sofrimento. Depois, o retorno das férias, quando ele nem chorou e quem desabou fui eu. E, ontem, a primeira declaração de independência.

Eis que hoje, na hora de ir pra escola, perguntei se realmente ele iria sozinho do portão:
- Sim, Mamí! Você fica no carro e eu vou sozinho com a minha mochila.
- Tá bom.

Paramos na frente da escola e eu fui saindo para pegar a mochila que estava no banco da frente. Ao me ver abrindo a porta, ele diz:
- Mamíiii, por que você está saindo do carro?
- Pra pegar a sua mochila. Você não quer mesmo que eu vá?
- Não, Mamí, já falei. Eu vou sozinho com a minha mochila.
- Então tá. Dá um beijo e vai com Deus.

Nossa, olha o drama! Parece que o menino ia viajar! Tudo bem, eu sei, pode ser exagero, mas não é a distância que conta aqui, é a simbologia do “não preciso de você”. 

Fiquei olhando do carro. Ele passou pelo portão, estufou o peito, foi andando com passinhos firmes, balançando os bracinhos e, pior (ou melhor!), nem se dignou a olhar pra trás!

Meu peito apertado ficou contemplando seus passos rumo à autonomia, à confiança. É pra isso que a gente cria os filhos (mas, precisava ser assim tão cedo?)

Antecipando o dia das mães

Domingo é dia das mães e hoje já me deu vontade de escrever sobre ser mãe.

Antes de ter filhos eu não sabia o que era segurar uma criança para que nela fosse aplicada uma vacina, que, mesmo sabendo que era para o bem da sua saúde, isso iria lhe causar um desconforto físico incomparável à dor que eu senti por ele.

Antes de ter filhos eu não imaginava o que era a magia de amamentar. Não tinha  noção da emoção de saciar um ser faminto. Sem falar no olhar desse bebê enquanto mama – parece que seu olhar invade a minha alma.

Eu já havia ficado feliz algumas vezes na vida ao ganhar um sorriso, mas o sorriso de um filho faz a gente transbordar de alegria e encantamento.

Não imaginava que poderia ficar horas contemplando um ser dormindo, ouvindo sua respiração, seus suspiros, sua paz.

Antes de ser mãe meu coração já havia se partido algumas vezes em contratempos da vida, mas nunca em milhões de pedaços por não conseguir impedir uma dor ou sofrimento de um filho.

Aliás, depois de ser mãe eu passei a sentir a estranha sensação de meu coração pulsar fora do meu corpo.

É incrível como seres tão pequenos podem transformar tanto a minha vida, as minhas decisões e frear meus impulsos.

Antes de ser mãe eu não sabia direito o que era ansiedade, preocupação, alegria, satisfação e amor.

Agora, sendo mãe eu estou descobrindo o que realmente importa na vida.

Ele e ela

Ele estudou pouco, leu pouco, escreve quase nada.

Ela estudou mais, foi professora, lê e escreve bem.

 

Ele sempre dependente, não faz nada sem ela. Até pra ver a roupa que vai vestir, precisa dela.

Ela sempre foi mais independente. Geralmente tem solução para os problemas caseiros e sua opinião prevalece.

 

Ele sempre foi mais “bruto”, mas não menos generoso.

Ela sempre foi mais “pacificadora”, com tato para impedir e solucionar conflitos.

 

Ele sempre trabalhou muito, mas o dinheiro dele quem controla é ela. Desde sempre.

Ela trabalhou menos fora de casa, pois se aposentou após ter a segunda filha, mas em casa, toma conta de tudo e controla as finanças. Quando ele quer dinheiro para comprar bala ou arrumar o carro, tem que pedir.

 

Ele adora ficar em casa. Não gosta de passeios, comer fora, nem lugares diferentes.

Ela adora sair, passear, conhecer gente, lugares, novidades.

 

Ele dirige.

Ela não aprendeu. E agora acha que não dá mais tempo. Tá aí uma coisa pra a qual ela  mais precisa dele: deslocar-se. Ele não gosta de dirigir, ela precisa. Quase sempre uma “encrenca”.

 

Eles têm três filhos. Ele critica se algum deles sai da linha (da linha dele). Mas se derrete quando eles lhe dão um pouco mais de atenção. Ela sempre os defende. Pra ela, os filhos são “tudo na vida” e “quase perfeitos”.

 

Eles adoram implicar um com o outro por nada. Só pra se divertir. E de uns tempos pra cá, acharam uma criaturinha perfeita pra “sacanear” um ao outro: o neto.

 

Ele diz para o neto: essa casa não é da vovó ou esse brinquedo do “Panda” é igual a vovó, tem barrigona!  Ela diz para o neto: desmancha o cabelo dele, faz um topete! Ou, fala pro vovô sair daqui, diz pra ele ir dormir.

 

Bom, o neto se diverte e quem presencia essa “guerrinha” só consegue rir. É um amor de quase 40 anos. De cumplicidade e implicância. De generosidade e dependência. De harmonia e parceria. De companheirismo e doação. São duas pessoas com gênios diferentes, mas com almas gêmeas e corações grandiosos. Se encontraram na vida e fizeram história. São exemplos de vida, de dignidade e de amor.

 

Sorte a minha, pois eles são o Seo Beto e a Dona Maurina, meu pai e minha mãe.

 

 

Lipe com Vó Ina e Vovô Beto

Lipe com Vó Ina e Vovô Beto


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