Inutilidade noturna

Desde que me descobri grávida, em 2004, não me lembro mais de ter dormido uma noite inteira.

Primeiro, a ficha da gravidez, da geração de uma vida, demora a cair. Parece com quando a gente era criança e ganhava um super presente de natal, tipo uma bicicleta desejada ou um video game. Acordava no dia seguinte e, ainda na cama, ficava pensando se realmente era verdade que o presente estava ali. Assim foi com a constatação da gravidez, eu não dormia pensando na veracidade do fato.

Depois, quando a barriga começou a crescer, não dormia porque a bexiga não deixava, enchia rápido demais e me levava para o banheiro várias vezes durante a noite.

Nos últimos meses então, o que não se consegue fazer é dormir. Qualquer posição é desconfortável.

Quando o Lipe nasceu, além de ser o primeiro, novidades, ansiedade, tudo novo, ele era faminto. Mamava no peito a cada 2 horas. Quando eu o colocava no berço e voltava pra cama, já estava quase na hora de voltar pra outra mamada. Fora as fases em que ele acordava assim que sentia estar no berço. E foi assim até 1 ano e 3 meses, quando parou de mamar no peito. Pensei que com a mamadeira dormiria melhor. Meu sonho era voltar a dormir uma noite toda.

Que nada! O danado acordava com fome no meio da noite e tomava uma, às vezes até duas, mamadeiras na madrugada. E foi assim até o irmão nascer. Acordava no meio da noite e pedia pra fazer a “dêda colorida” (o copo colorido, que já não era mais uma mamadeira, com leite).

Quando o pequeno nasceu, foram várias conversas explicando que não teria mais o leite da noite, que ele já estava grande e que precisava dormir a noite toda. E não é que funcionou? Mas, o pequeno ainda era muito pequeno, ainda mamava no peito e o “deita-levanta” continuava, pois mamava a cada 2horas e meia. E foi assim até 8 meses, quando passou pra mamadeira.

Como o Lipe demorou 3 anos e meio para dormir uma noite toda, imaginei que o pequeno fosse no mesmo ritmo. Qual não foi minha surpresa quando há uma semana ele dormiu uma noite inteira. Acordei na hora acostumada e esperei a ‘reclamação’… nada! Acordei umas duas horas depois, parei na porta e… nada! Quase 5h da manhã, entrei no quarto e fui ver se estava tudo bem (tá bom, confesso que fui conferir se ele estava respirando!).

Achei bom, mas ao mesmo tempo senti uma sensação estranha. Na noite seguinte o mesmo aconteceu. Ele não acordou. E eu? Dormi a noite toda? Claro que não, fiquei zanzando pela casa na madrugada umas 3 vezes, esperando ser chamada. E, novamente, nada.

Faz uma semana que ele não dá a mínima pra mim na madrugada, e eu, que tanto queria dormir uma noite inteira há 5 anos, não consigo dormir. A noite está longa demais, são muitas horas pra dormir, acordo, me viro, penso, penso, levanto e volto pra cama. Às vezes durmo, às vezes não.

Acho legal que eles consigam descansar a noite toda, isso dá até mais disposição pra eles. Mas, ainda não consegui restabelecer minha rotina noturna. Estou me sentindo (sendo bem sincera!) um pouco inútil. Não tenho mais utilidade materna durante a noite. Conflito difícil de entender esse né? Pois é, se as mulheres são complicadas, as mães sentimentais então, nem se fala!

Dia lindo

Hoje o dia amanheceu lindo.

É aniversário do João Guilherme, o Pequeno Gui.

Há um ano ele chegou. Estourando a bolsa em que estava envolvido e nascendo antes do previsto. Aliás, foi difícil segurá-lo na minha barriga. Desde a 33ª semana, já estava agoniado para sair, me fazendo sentir contrações bem antes do esperado.

Nasceu de madrugada – 1h08min – saudável e rosinha. Como o irmão, não gosta muito de dormir e me fez sentir bastante sono neste primeiro ano. Mas, interessante, esta noite dormiu direto sem acordar nem para a habitual mamada.

João Guilherme é um pouco atômico. Quando está acordado, parece ligado na tomada. Movimenta-se com desenvoltura pela casa toda. Adora subir as escadas. Não sei se a gente esquece como era o Lipe ou se ele realmente é mais ‘arteiro’.

Sua característica mais marcante deste primeiro ano de vida é a simpatia. Ele é realmente sociável. Sorri muito para conhecidos e também para os desconhecidos. Garçons são suas vítimas preferidas. Chegou perto do cadeirão ele já solta um sorriso e estende a mão para conquistá-los. E quase sempre atinge seu objetivo.

É um doce de criança. Me parece que crescerá tranquilo, fazendo ‘artes’. O que considero muito saudável.

Antes dele nascer eu ficava preocupada porque sentia tanto amor pelo mais velho que me parecia impossível dividir o sentimento com outro ou sentir algo parecido. Por várias vezes me questionei como seria o sentimento em relação a este novo ser. Hoje eu sei que o amor não se divide entre filhos. O amor que temos pelos filhos se multiplica. E tenho a impressão que aumenta com o passar do tempo.

Desejo a este pequeno uma vida de saúde, uma infância feliz, uma história de perdas e ganhos, de aprendizado e, principalmente, que ele seja um adulto com valores, um ser humano preocupado com o bem estar dos seus semelhantes.

Este é o meu desejo neste dia em que completa um ano de vida e, tenho certeza, o será para todos os outros anos!

Parabéns Gui!

Atropelados por um Chester

Que dia é hoje mesmo?

Como assim? 10 de que? Dezembro?

Nossa! Cadê o ano que acabou de começar e já está acabando de terminar?

Difícil encontrar alguém nestes dias que não esteja apressado.

Calma! Calma, não! O natal tá aí. Semana que vem tem que estar tudo pronto!

Pronto pra que?

Pronto para o Natal e para o fim de ano, oras!

Gente? Que correria é esta?

No telefone, no msn, por e-mail, nas ruas, nos shoppings, nas clínicas, nos supermercados. As pessoas parecem um bando de formigas se preparando para o inverno.

Tudo isso porque o fim de ano está aí, o natal está chegando, os presentes devem ser comprados o quanto antes. A ceia tem de estar preparada. Não pode faltar comida, bebida, sobremesa, comilança, presentes. Ufa!

Será que é este mesmo o espírito de natal? As pessoas andam pra lá e pra cá, compram roupas, brinquedos, comidas, planejam ceias, não pode faltar o penteado, a maquiagem, a manicure.

É época de confraternizar e o que se vê são pessoas estressadas no trânsito, nos provadores das lojas, nas filas dos supermercados.

É época de trocar, mas esquecemos que não são somente presentes. É hora de trocar carinhos, abraços, bondade.

É época de reflexão sobre a vida. Mas só vejo as pessoas precupadas com a comida para uma noite.

É época de aconchego, mas o consumismo não dá espaço.

Parece que além de sermos atropelados pela velocidade do tempo, estamos sendo atropelados por um Chester.

Que sobrevivam todos!

O que a gente leva desta vida

Leio e vejo todos os dias na intenet, jornais e TV notícias sobre o sistema de saúde em nosso país. A gente sabe, mas só sente mesmo quando precisa. Só se sensibiliza quando vê de perto.

A babá dos meus filhos, nossa querida Leli, está com infecção urinária. Tão alta  que, após uma febre que não cessava e dores intensas, precisou ser internada. Sorte dela que seu pai, que é funcionário da Petrobras, prorrogou o convênio dela por mais um tempo, embora já tivesse atingido  a maioridade civil (21 anos) em junho.

Ela foi encaminhada para o Hospital de Caridade, que, pra quem não sabe, tem mais de 2 séculos, e é considerado o melhor da Capital. Ontem  passei a tarde com ela na enfermagem da emergência aguardando um quarto. Eram 12 pessoas com o mesmo objetivo: um quarto, um melhor  atendimento.

Os enfermeiros se esforçam para fazer o possível, e fazem até o impossível para atender bem aos pacientes. Uns com dores, outros  precisando de carinho e atenção.

A Leli passou o dia numa poltrona, com  dores fortes, carinha de assustada e só lhe restava esperar e esperar. Eu ali, sentada num banquinho na frente dela fiquei refletindo sobre aquelas pessoas e sobre a vida.

Do lado da Leli tinha uma moça. Suellen é seu nome. 22 anos. Seu caso é grave. Ela só sobrevive com um transplante de coração. Suellen, além de necessitar de cuidados médicos, precisa de atenção, de carinho. Ela pediu:
- Alguém arruma minha meia, tá caindo?
Olhei em volta e não vi o enfermeiro. Falei:
- Eu arrumo pra você, quer?
- Quero sim.

Foi o que precisava para o início de uma relação de afeto. De pouco tempo. Mas válida. Contei piadas, fiz ela rir. Ficou mais leve. Fui embora pensando na Leli, mas com o coração apertado por causa da Suellen. 22 anos, esperando por um transplante, num país como o nosso, com um sistema de saúde precário. Fiquei pensando quais eram as chances dela. E me entristeci muito constantando que são mínimas.

Quando avisei a Leli que estava indo embora, Suellen suspirou:
- Ahhh, não!
- Que foi menina? perguntei a ela.
- Fiquei triste porque você vai embora, você nos divertiu tanto. Fica mais um  pouco.

Fui embora com várias sensações me invadindo. Tristeza, pela impotência. Alegria, por ter  alegrado um pouco a Suellen. Medo, de precisar desse sistema de saúde precário. Angústia, por tudo que presenciei na tarde de ontem.

Hoje, voltei ao hospital para ficar um pouco mais com a Leli, que já está bem melhor e deve receber alta amanhã, e fui em busca da Suellen. Descobri o número do quarto e fui lá visitá-la e levar uma balinha. Ficou tão feliz quando viu eu e a Leli!

Saí de lá com a certeza de que, como diz o poeta, o que a  gente leva desta vida é a vida que a gente leva.

Mãe não brinca!

Meu menino maior adora brincar, como toda criança, claro!

Sua brincadeira favorita é de ‘faz de conta’. Estórias com o personagem Ben 10 são as preferidas. E sua grande parceira nas aventuras é a Leli.

Todos os dias ele acorda super cedo, entre 6h e 7h e fica à espera dela, que chega às 8h. E, geralmente, ele comenta: ‘como a Leli tá demorando hoje né?’

De bola ele não brinca. De bicicleta também não. Curte a casa e o jardim e não gosta muito de ir no parquinho à toa. A menos que tenha certeza que vá encontrar algum amigo.

Assim, suas manhãs são de um faz de conta total com Ben 10 e sua família (que no desenho não aparece, mas nas estórias do Lipe sim) vão ao parque, ao circo, a aniversários, ao cinema, passeiam de carro  e outras modalidades.

O Lipe não gosta de domingos e feriados. Isso porque a Leli não ‘vem brincar’ nesses dias. Então, quem assume a parceria nas brincadeiras é o Papí.

Domingo passado, o Papí estava cansado das viagens da semana. Esgotado de tanto ir e vir de avião. E como o Lipe acorda cedo e se o pai está em casa vai direto acordá-lo, domingo não foi diferente.

No meio da manhã, quando o pequeno Gui dormiu, sugeri ao Papí que fosse descansar um pouco. Disse ao Lipe que brincaria com ele enquanto o Papí descansava. Ele não gostou nada. Ficou chateado.

Então eu falei:
- querido, eu brinco com você!
- não! você não!
- mas por que? podemos brincar de dinossauros, Ben 10, monstros vs alienígenas, do que você quiser!
- não! mas não pode!
- mas por que não pode, Lipe? Eu posso inventar coisas bem legais!
- não pode porque você é mãe! E mãe não brinca!
- ah é? mãe não brinca? Por que?
- por que quem brinca é criança com o pai ou com a babá. Com a mãe criança não brinca.
- ah! mesmo? e mãe faz o que então?
- mãe cuida e faz comidinhas.
- ah bom! entendi então.

E assim, ele brincou sozinho e eu fiquei apenas olhando. Mas claro que pedi autorização. Perguntei se ao menos podia olhar ele brincar. Imediatamente respondeu:
- olhar pode. Mas brincar não, eu já disse.

Então tá né? Fiquei só cuidando. A comidinha fiz mais tarde…

Espetáculo de menino

Ontem aconteceu o espetáculo anual da escola do Lipe. A escola trabalha com projetos/temas. Há meses a turma do Lipe vem estudando o começo do universo e, especificamente, os dinossauros.

Ele está fascinado com as descobertas sobre os dinos. Sabe qual é o maior dinossauro carnívoro, quais são herbívoros, os nomes de vários, qual é perigoso, qual é bonzinho. No dia das crianças foi o tema preferido para presentes. Agora tem vários bichos desses aqui em casa. Até eu já aprendi alguns nomes.

No espetáculo de ontem ele dançou com um Tricerátopo – um dinossauro com chifres, parente distante do rinoceronte – que eles mesmos confeccionaram na escola.

E, novamente, estávamos nós lá na platéia, babando, emocionados com a performance do nosso “pequeno artista”. Um show! Ele estava lindo de camiseta branca, cabelos um pouco compridos, seguro e muito feliz.

Eu sei que quando falo que ele é lindo pode parecer exagero ou coisa de mãe, mas é sério, ele é lindo! Tão fofo e querido que já tem até fãs-mirins…

Hoje, quando fui buscá-lo na escola, me contou que ganhou presentes da Duda: um chaveiro do Ben 10, figurinhas e um pirulito em formato de boca. Na embalagem do pirulito estava escrito: meu sonho é seu beijo!

Fazer o que, ele é um espetáculo de menino mesmo!

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Ufa! Passou!

Demorei, eu sei. Mas o motivo da minha demora é justamente o tema deste post.

Fim de semana retrasado, Lipe começou a sentir uma febre. Sábado e domingo meio ‘caidinho’.  Segunda ainda um pouco de febre, não foi pra escola. Na terça ficou melhor, foi pra escola e, aparentemente, foi um resfriado. Mas me ligaram no meio da tarde pra buscá-lo, pois não estava bem.  Liguei pro pediatra que me mandou levá-lo na terça pra examinar. Ferla viajando, passei a noite preocupada com ele. Acordou pedindo pra esquentá-lo porque estava com frio.

Levei cedo no médico. Examinou, pediu um exame de urina e um Raio-x. Inventei uma estorinha engraçada pra fazer xixi no potinho e outra pra tirar foto das “costelas”.  Peguei o resultado na hora e, pra minha surpresa e tristeza: pneumonia!  Fiquei meio sem reação enquanto voltava pro pediatra pra mostrar o exame. Afinal, em função da onda da gripe suína, a pneumonia tornou-se tema assustador.

Desde que nasceu, o Lipe nunca precisou de remédios tipo ‘anti’ (inflamatórios ou bióticos). Mas, dessa vez não teve jeito. Pneumonia é originada por uma bactéria e ela precisa ser exterminada. E só com antibióticos. Levei-o pra casa e comecei a  medicação.

Ainda meio assustada, cansada, um pouco triste, pois mãe tem dessas de se achar culpada quando o filho adoece, senti o pequeno um pouco quente na tarde de quarta. Pensei que pudesse ser psicológico, pois o irmão estava caidinho e a mãe estressada. No dia seguinte a febre continuou e lá fui eu mais uma vez pro pediatra, desta vez com outro paciente.

Após examinar, o médico desconfiou de uma amigdalite, mas pediu pra monitorar a febre e voltar no dia seguinte. Voltei, novamente com febre e caidinho. Não tinha dormido nada a noite toda – nem ele, nem eu. Após novo exame, o médico desconfiou que pudesse ser também pneumonia, já que o irmão estava com esse diagnóstico. Pediu radiografia do pulmão.

Pro mais velho, a estorinha da foto das costelas funcionou, mas e pro pequeno? Será que havia uma forma especial de radiografar ou era naquela maca gelada e fria de aço? Fui pra clínica  de radiografia com ele ardendo em febre. Ambos cansados e chateados – ele e eu. O atendimento foi péssimo – atendentes conversando com a clínica cheia, a moça que me atendeu dizendo que não poderiam dar o laudo pra mim na hora conforme pedido do pediatra, a demora pra chamarem pro exame.

Como se não bastasse, não havia forma especial para radiografar bebês. Tive que colocá-lo deitado naquela maca fria e dura, ele quente e choroso, e ainda tive que segurá-lo com os dois braços pra trás. Ele chorava e me olhava pedindo socorro. E o socorro que eu poderia lhe dar naquele momento era apenas segurar seus bracinhos. Após a tortura, ele ficou soluçando no meu colo por uns 5 minutos. Até que veio o radiologista avisar que precisaria fazer tudo de novo porque a radiografia não tinha ficado boa. Diante disso, não foi só o meu pequeno que chorou, eu não contive minhas lágrimas.

Depois de muito insistir me deram o laudo e voltei pra clínica. O pediatra examinou a radiografia e o laudo. Não estavam em sintonia. O médico que deu o laudo o fez errado. O menino estava com pneumonia também e um documento errado poderia tê-lo mandado pra casa sem a medicação correta se o pediatra não estivesse atento. Quanto stress!

Fomos pra casa e comecei também o tratamento com antibióticos. Porém, a reação deste foi bem diferente da do mais velho. Para o pequeno o antibiótico foi como veneno para o estômago. Não dormiu o fim de semana todo com queimação e azia, choroso, nem a mamadeira de leite conseguiu tomar. Ontem, liguei pro pediatra que sugeriu suspender o tratamento e começar outro remédio para ‘arrumar’ o estrago causado pelo antibiótico no aparelho digestivo.  Hoje está melhor e já consegue tomar um pouco de leite na mamadeira, mas ainda sente a queimação e joga a cabecinha pra trás tentando aliviar a dor.

Não preciso nem dizer o quanto a semana que passou foi dura pra nós e exaustiva pra mim. Quando era criança e tinha alguma dor ou me machucava e chorava, minha mãe dizia: “preferia que fosse comigo”.

Hoje entendo perfeitamente o que ela sentia: quando a dor é no filho, dói muito mais do que se fosse na gente. Repito a frase dela: “preferia que fosse comigo”.

Borboletas e emoções

borboletaDesde criança sempre gostei de borboletas. São insetos agradáveis. Coloridas ou de uma cor só são leves. Diria, encantadoras.

Aliás, tenho a impressão de que quando eu era criança existiam muito mais borboletas do que hoje. Vaga-lumes então, tinham aos montes. Durante o dia, em qualquer lugar, achava-se uma borboleta. Durante à noite, os vaga-lumes ocupavam o lugar delas.

Agora fiquei em dúvida, se quando era criança eu é que prestava mais atenção na presença desses bichinhos ou se realmente agora existem menos que antes.

Bom, mas essa introdução sobre as borboletas foi na verdade para falar de emoções.

Quando estava grávida do Lipe e senti ele mexer na minha barriga pela primeira vez – em 27 de janeiro de 2005 – lembro-me que para descrever a sensação lembrei da leveza das borboletas e do encantamento que proporcionam. Quando Ferla me perguntou o que eu senti, respondi:
- Foi como se uma borboleta estivesse voando dentro da minha barriga.

E era realmente o que parecia. Era a descrição de uma emoção.

Ontem, foi a abertura das Olimpíadas da escola do Lipe. Ele faz parte da equipe amarela, que representa o Calendário Chinês. A camiseta dele tem um ‘dragão chinês’ nas costas e foi o suficiente pra ele adorar estar nesta equipe.

Então, estávamos lá na platéia da abertura, também de camisetas amarelas, enquanto acontecia o desfile e disputa de animação entre as torcidas. É algo simples, corriqueiro, mas estávamos nós dois – pai e mãe – emocionados com nosso filhote ali participando de um evento dos jogos da escola. Ele estava ansioso com o barulho, a festa, a torcida e olhando pra conferir se estávamos ali todo o tempo.

Em nossa mente veio as lembranças de quando éramos crianças e o quanto era importante pra gente esses eventos, competições, gincanas. Eram dias esperados, agitados, emocionantes. Ferla virou pra mim e disse:
- Engraçado, parece que tem uma borboleta voando dentro de mim. Sabe, uma sensação assim, de quando a gente era criança, de felicidade com esses momentos…
- Sei. Isso se chama emoção. É o que estamos sentindo.

O evento de abertura finalizou e fomos ao encontro dele, que ficou grudado em nós dois, como se quisesse agradecer pela nossa presença e apoio num momento super importante pra ele.

E as borboletas ficaram ali, dentro da gente, voando por mais um bom tempo.

Na correria…

Faz tempo que não escrevo. Aliás, faz tempo que não leio meus livros. Faz tempo que não arrumo gavetas. Faz tempo que não durmo direito.

Estamos no final do mês de setembro. Setembro? Como  assim? Mas o Reveillon foi há pouco tempo, não?

Sei que muitas pessoas estão tão impactadas quanto eu com a velocidade do tempo. Parece que ninguém tem tempo pra mais nada.

Faz duas semanas que quero ligar para uma amiga querida só pra saber como ela está e o tempo vai passando e a ligação não é feita. Estou com vários livros que pretendo ler no meu criado-mudo desde o início do ano e não terminei nenhum. A última gaveta da minha cozinha tá merecendo uma arrumação desde o ano passado, mas e cadê o tempo livre?

Estive reparando na última semana que, cerca de 80% das pessoas com quem eu encontrei e perguntei: “oi, e daí como está você?”, responderam que estavam “correndo” ou “sem tempo pra nada”.

Quando éramos crianças sobrava tempo não é? Brincávamos, brincávamos e o dia não acabava, os anos demoravam a passar. Mas só naquela época mesmo. Agora, ainda mais com crianças em casa, o tempo se esvai e não percebemos.

As inovações tecnológicas trazem informações cada vez mais rápidas e precisamos estar no mesmo ritmo e, assim, o tempo vai passando. Não vemos mais os vizinhos, não ligamos pros amigos, não vemos os filmes que queríamos ver, não lemos os livros que queríamos ler. E assim a vida vai passando. Já estamos em setembro. Daqui a pouco, mais um Natal.

Estamos vivendo nossas vidas ou estamos vendo o tempo passar? Não que as coisas não estejam boas, pelo contrário, estão tão boas que deveriam demorar mais a passar. Mas, e quem segura ele? O Sr. Tempo? 

Ele passa e nós vivemos. Rápido, tão rápido que me pego constatando que já estou no futuro.

Missão cumprida

Nem sempre a cabeça e o coração de uma mãe estão em sintonia. Por vezes, a cabeça toma uma decisão que é difícil para o coração segurar. Surgem a dúvida acerca do “certo e errado”, “bom e ruim”.

A maioria das mulheres quando engravida deseja o melhor para seu filho e já vai pensando em como vai ser cada detalhe após ele nascer. Se vai ser menino ou menina, se ele vai chorar ou não, se o parto vai ser normal ou cesárea, se ele vai mamar no peito ou não. Enfim, mil coisas fervilham na cabeça. E o coração descompassa.

Dentre todas essas coisas, a amamentação ocupa um papel especial. O ato de amamentar é uma doação. É um desapego à própria liberdade em favor de uma pessoa. Uma pequena pessoa.

A expectativa em torno deste momento chega a ser angustiante: e se o bebê não mamar? e se o leite não descer? e se o mamilo rachar? E assim vai.

Tanto o meu filhote mais velho quanto o mais novo, logo ao nascer já mamaram como se também estivessem esperando por aquele momento.

São momentos únicos, especiais. Uma troca fantástica de ternura. O olhar de um bebê para uma mãe no momento da amamentação deveria ser elevado ao grau de “olhar mais especial do mundo”.

Até os seis meses, quando possível, prazeroso e saudável para mãe e bebê, é obrigação. Mais que esse tempo é pura doação.

O momento do desmame é, ao contrário, perturbador. Esta semana desmamei o Pequeno Gui. Tem sido mais difícil pra mim do que pra ele, assim como foi com o Lipe, que parou de mamar com 1 ano e 3 meses. A última mamada do Guigui  foi na madrugada do dia 3 de setembro às 2h30 da manhã.

Ele completa 9 meses este mês. Mas nem foi pela idade que tomei esta decisão e sim pelo fato de que estava viciado em mamar. Acordava de 3 a 4 vezes por noite para mamar 4 ou 5 minutos. Ele não descansava direito e eu muito menos.

Decidi, implementei a decisão, mas a confusão mental atormenta. Será que não estou sendo cruel, tendo leite e ‘negando” a ele? Será que estou sendo egoísta e pensando só no meu descanso, na minha liberdade?

Como eu disse, pra ele foi mais tranquilo do que pra mim. Já estou com saudades dos momentos em que ele mamava, me olhava, sorria com os olhos me agradecendo pelo carinho, pelo leite morninho, pelo contato.

Mas é assim… na vida as decisões tem que ser tomadas. O sofrimento pela saudade desses momentos únicos existe, é intenso, mas faz parte. Encerro esta etapa com a sensação de missão cumprida.

Cumpri mais uma obrigação de mãe.

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